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O Ensino em São Paulo Imprimir E-mail

 

A cada ano o ensino em São Paulo e no Brasil vai perdendo a qualidade e a quantidade. Como mestre na escola pública, sempre me foi difícil cumprir o planejado, mas antigamente eu ficava próximo do ideal. Houve turmas que consegui esgotar o planejado e avançar para mais longe. De uns anos para cá fico feliz se consigo chegar aos oitenta por cento do planejado e me pergunto quais as causas? Qual a minha parte de culpa neste processo de deterioração do ensino?

Será que terei que dar razão aos que gritam a plenos pulmões que o governo e a burguesia brasileira querem que nossos futuros cidadãos saibam apenas ler, assinar o nome e obedecer? Mas qual governo? Não estamos em uma democracia? Não foi o povo que elegeu estes governantes de esquerda, que até alguns anos eram extremamente radicais? Quem serão estes burgueses? Os da social-democracia? Bem, respostas prontas não faltam para explicar o fracasso escolar. O mais revoltante é saber que há pseudo-educadores com Phd, que nunca pisaram em uma sala de aula, e que têm todas as respostas “necessárias”. Eis algumas:

-         A escola deve fornecer alimento aos alunos, aluno com fome não aprende. Dizem isso por que eles nunca foram a uma escola pública, de preferência nos grotões da periferia, (salvo honrosas exceções) em horário de merenda para ver o pouco caso que muitos alunos (pobres) fazem da merenda oferecida.
 
-         Os professores devem ser requalificados. Bem, oferecem cursos de computação que se limitam a ensinar como abrir um documento salva-lo e imprimi-lo. Outros cursos, já de conteúdo específico, se limitam ao óbvio que qualquer recém-formado já sabe.
 
-         Os professores devem dar atenção especial aos alunos. Certo. Como faze-lo em uma sala com trinta e cinco ou quarenta alunos?
 
-         O professor de se dedicar integralmente à escola. Correto. Mas nosso soldo é de frades franciscanos. É impossível o educador viver com uma só fonte de renda. Precisamos acumular outro cargo ou ter outra atividade durante as horas que deveríamos estar aprimorando nossos conhecimentos.
 
-         A família deve participar no processo de aprendizagem dos alunos. Pela constituição brasileira a educação é em primeiro lugar dever da família. Mas, qual é o conceito, hoje, de família?  Filhos que trocam de mamãe ou de papai a cada ano, quando não vivem com os avôs. Mães que trocam de namorado a cada mês e pai que troca de mulher a cada semana. Pais ou responsáveis que nunca olharam para o caderno do filho. Pais que nunca telefonaram para escola para saber se o filho está freqüentando assiduamente a sala de aula, só ficam sabendo das estripulias do “pimpolho” no final do ano quando descobre que o filho ficou retido por excesso de faltas. Ou quando é convocado pela direção da escola devido a atos de vandalismo ou de indisciplina na escola. Pais ou responsáveis que não impõe limites as crianças, acham que o filho tem que receber tudo e pode fazer tudo o que eles (pai, mãe ou reemposáveis) não fizeram e não tiveram durante suas pobres infâncias. Esses pais se esquecem que na história humana nem sempre os filhos reconhecem o que seus pais fizeram.
 
-         A escola deve informar aos pais a vida escolar do filho. Como? Se há pais que mentem no dia da matrícula o verdadeiro endereço, só para poderem matricular seus filhos. Dão números de telefone que não existem. Há escolas com mais de dois mil alunos. Quem poderá analisar caso a caso e comunicar aos pais, ou responsáveis, se faltam funcionários nas escolas.
 
Continuar apresentando teses, de quem nunca “pegou no giz” é enfadonho, irritante e totalmente dispensável.
 
Se uma escola tem ensino fundamental de quinta série deveria ter cadeiras e carteiras adequadas ao tamanho do público, então esses materiais não servem para a clientela do ensino médio da terceira série, ou serve? Bem, quem trabalha na rede estadual sabe que as cadeiras e as carteiras são as mesmas para os da quinta série até os do terceiro ano do ensino médio ou EJA. Cabe a nós mestres mantê-los nesta desconfortável situação por cinco horas, a menos que se tenha a sorte de ter um público adequado a cadeiras e carteiras da sala (é irônico, mas é o aluno que deve se adaptar ao mobiliário). Há computadores e laboratórios para usarmos em nossas aulas, porém como operacionalizar? É possível colocar quarenta alunos em alguns computadores? Há como abrir a sala, preparar as máquinas, usar, desligar e deixar a sala como antes em cinqüenta minutos? Mesmo com o Acessa São Paulo e uma pessoa na sala não ajudou em nada a disponibilizar os computadores com internet aos alunos.
 
Poucos pseudo-educadores de plantão pensaram em um professor adjunto por matéria. Esse profissional nos ajudaria nas aulas de laboratório e informática. Também não está nas novas mudanças reduzir o número de alunos para quinze, em centralizar cada escola com um determinado público. Falam em aluno monitor, mas a vivência escolar nas escolas públicas nos mostra outra realidade. Aluno monitor é um problema a mais para a coordenação e a direção na maioria das vezes, a menos que a escola seja premiada com um mais um abnegado franciscano, agora na figura de aluno.
 
Hoje o aluno não pode andar muito, por isso a escola deve ficar perto de sua casa, deve ter todas as séries. Mas até pouco tempo atrás nós andávamos muito para chegar à escola. Talvez se nossas se crianças andassem um pouco mais perderiam o excesso de peso que muitos (também pobres) têm. Se uma escola se dedicasse a uma ou duas séries não seria mais confortável? Andar alguns quarteirões a mais fará mal a quem é jovem?
 
Finalizo com pessimismo, pois afinal até os sindicatos da categoria de nós mestres não pleiteiam melhorias para o ensino. Querem, pura e simplesmente, greve, aumento de salário e, depois, receber pelos dias paralisados; como se uma boa aula dependesse só de bons salários. Claro que uma boa reforma no ensino passa, obrigatoriamente, pela melhoria de salários, mas não é tudo. O problema é mais crônico, mas de simples solução. Assim provou o Japão, a Finlândia, a China. Basta o “arroz com feijão” como os asiáticos fizeram. O problema é esperar vinte anos para colher os resultados, mas quando iremos começar? O presidente Collor assumiu em 1990 e prometeu revolucionar a educação, se ele tivesse começado e os demais, presidentes continuados com a prioridade já teríamos vinte anos de trabalho, não estaríamos já colhendo os frutos?
 
Teremos que esperar mais vinte e tantos anos? Só que o mercado de trabalho e o Brasil não podem mais esperar; então a quem interessa e de quem é o fracasso escolar?  De nós professores? Do aluno? Ou será o resultado de uma sociedade como um todo?

Crisógono Martins
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Itapevi, Fevereiro de 2009


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Comentários
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Arlei  - ensino   |IP200.210.156.xxx |17/01/2011 12:47:59
Para aproveitar esta matéria, acredito que a participação dos pais seria o primeiro passo para haver mudança no ensino publico, acompanhar as atividades da escola, ver as dificuldades que o aluno esta enfrentando e os professores com os alunos sem ser parcial e na hoar do voto pois reclamamos e elegemos os mesmos que prometem a mudança e ela não vem.
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